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S.O.S

com carinho à L.,

Não que conselho não seja bom. “É bom, e eu gosto”, já dizia alguém sobre respeito, que está quase ali. Mulheres que o digam, naquelas terapias entre amigas que psicólogo nenhum consegue superar. Eu que o diga, que falo sozinha para escutar meus conselhos, negá-los e sair por aí distribuindo-os, por força do hábito do “faça o que eu digo, não o que eu faço”.

Mas dessa vez pediram minha ajuda. Não foi diretamente para mim. Mas foi de uma forma tão sincera, visceral e orgânica, que não pude ignorar. Mas pelas circunstâncias, somos colegas. Não teria como dar um abraço silencioso e longo, pois não sei nem onde ela está. Não teria como ressaltar suas inúmeras qualidades e fazê-la enxergar as conquistas recentes, pois nem saberia dizer quais seriam, a não ser uma filha linda, que vejo virtualmente pelas fotos.  Não tenho seu número de celular, para mandar aqueles vídeos toscos e faze-la distrair uns minutinhos. Para tudo isso, sei que ela terá respaldo. Alguém fará.

Everybody hurts, sometimes. Poderia ser, mas não é pela empatia que os contextos que nos uniram na faculdade fizeram eu nutrir por  ela que escrevo isso. É pelo seu pedido .  Certa vez, extremamente aflita, sozinha, como se ninguém pudesse me entender completamente,me perdi no ônibus em uma cidade estranha. Dois ônibus a distância diametralmente oposta de onde eu teria que ir. Soube disso na hora que só tinha eu sentada, no terminal final, e o moço, com um sotaque mineirim, me disse: “mossss, cê temque descê, o onibussss não vai maissss não. “ E sorriu. E eu chorei.

Assim. Desse jeito.

Tinha 18 anos, e o menino não muito mais que isso. Coitado. Na inocência clara, e na simplicidade necessária,  e uma delicadeza fora do comum, me ofereceu salgado, água, colo. E me perguntou: por que você está chorando? Não tem porque chorar não, a vida é boa moça! Mas se quiser chorar, pode chorar, eu fico aqui com você!”

E ali eu vi que a vida era, realmente, muito boa. Meu pedido de socorro, silencioso, tinha sido escutado no universo. Não eram parentes, amigos queridos, com as palavras certas, mas que naquele momento não seriam passíveis de racionalização. Era um estranho. Chorei um pouco, até o ponto de sentir vergonha e alívio, e olhei agradecida. Ele fez uma olhar como “não há de quê”, e me perguntou: “Olha que vista bacana essa?”

E eu senti, naquele momento, a potência da vida. Nossas miopias não sobrevivem à beleza da paisagem. Nunca mais vi o menino, nem saberia reconhecê-lo. Mas foi um momento tosco, de amor. As vezes estamos muito machucados, cheios de lodo. Precisando que a simplicidade refresque nosso soluço, como brisa divina, levando tudo isso que sabemos não nos pertencer. Fazendo com que nos percebamos conectadas em tramas muito maiores. Trazendo luz.

Para você, L., digo que fique tranqüila, o alívio virá, e com o tempo, muita luz.

Você falou de amor, do amor romântico, dos sonhos desconstruídos. Dor de amor é doída, e disso, a coisa mais eficaz que posso dizer é: isso passa. E, seja feliz por ter amado, sobretudo. É tão difícil conseguir isso! A minha maior desilusão amorosa, foi sofrida. Só saí dela quando soube que passava, que ninguém morria por dor de amor, que era importante para os poetas e os músicos,rs, e por fim, que eu tinha amado alguém e vivido minha própria história,( nem que tivesse sido só eu). Isso me fez entender tudo diferente. Não somos o que recebemos, mas o que damos.  E não se desespere: você receberá. E fará todo sentido, depois.

Não veja isso como um conselho. Veja essas palavras como uma oração carinhosa, na pretensão de você perceber  alguém te mostrando, com um sorriso, o que você já sabe: como a vista é bacana, e a vida é a boa.

Você não está sozinha. Este texto sou eu, com você.

Agosto começa

Encontrei um amigo, e ele me disse que estava séria. “Parece aquelas advogadas de trinta e poucos anos, séria”. Rimos, eu tampouco advogada e trintona, e a vida seguiu.

Não sei exatamente o motivo, mas o comentário alheio condensou a constatação interna que já vinha gritando, como um sinal de que o 15 de agosto é um ritual fatídico, e não apenas um apelo comercial ou tradição que nem se sabe o porquê. O prenúncio que os 27 anos de hoje estão mesmo pros trinta e poucos de daqui a pouco é implacável.

Meu namorado me disse ontem, sabendo que não poderá estar aqui pessoalmente, que vamos comemorar esta semana todos os dias, pois sabe como me importo com aniversário. É verdade. Sempre levei aniversários a sério.  Meus 27 anos começam já. Costumo pensar que agosto, o “desgosto” dos feriados fáceis, conservam essa festa particular, a constatação das mudanças, da redefinição de sonhos, da reabilitação de energias. Irão dizer que é porque sou leonina, e me chamarão de narciso moderno, só porque gosto de um espelho (ou mais maldosamente, da minha própria imagem)…tudo bobagem. Aos quinze fazia a combinação astral do paquera, antes de saber seu nome…ah, os astros e o destino inexorável! rs. Mais perto dos trinta e poucos do que dos vinte e poucos, leio astrologia, me interesso pela numerologia, leio sobre búzios, mas mais para sorrir dos astros e  suas coincidências, com a certeza de que a vida se escreve nesse universo gigantesco além de mim, e que talvez eu não tenha tamanha importância cósmica para estar impressa, e tendo a possibilidade de ser advertida, em jornais banais, (que não me comovem mais).

Este exemplo é para dizer que não se trata de desacreditar das crenças que antes foram tão úteis. É apenas a nova roupagem delas. É a constatação de que, se de fato não puder sair do desígnio de ter que me olhar ao espelho, agora a questão é que não reconheço mais minha imagem. Os trinta e poucos não me amedrontam. Só me fazem sentir que a imagem é turva, como um convite para mergulhar profundamente nas não obviedades, para comungar o todo que em mim habita com uma intensidade séria, necessária para buscar esse retrato que se redesenhou de mim mesma, para, quem sabe, depois rir disso tudo com a loucura necessária da senilidade, onde se impõe o riso sem tanta bobagem.

Por enquanto, me convenço da invenção da seriedade. Mas tenho medo da seriedade séria, seriamente. A comoção dos trinta e poucos é pesada, mesmo quando leve. Passei esses dias pela Avenida Paulista, e um moço com um violino, e outro com um outro instrumento que minha ignorância desconhece, tocavam uma música linda. Um mendigo dançava loucamente, as pessoas passavam e sorriam, reconhecendo a beleza que inundava aquele momento banal pela música daqueles moços. Ao deixar um dinheiro no chapéu, o moço me olhou profundamente, e disse obrigado, pleno de si e de sua música. Saí quase dançando como o mendigo, na felicidade banal de ter uma trilha sonora para adocicar esses tempos imundos. É bonito. Mas é pesado entender que somente perto dos trinta e poucos, faz sentido os pequenos sentidos.

Agosto já começa. E hoje eu assisto óperas. Confesso então minha seriedade, e denuncio, sem querer, meus trinta e poucos anos sem muito esforço. Agradeço e celebro a vida, em mais um ano. Meu único pedido é para que a criança que brinca em mim nunca morra. Que da infância, eu esqueça os traumas que nem eu sei quais são, porque a seriedade de Freud e sua fixação com o inconsciente tampouco pode ser levada ao pé da letra.  Que do futuro, eu leve o presente, sem a ansiedade imposta, mas a celebração de cada dia… para, quando olhar no espelho novamente, com um susto engraçado de quem não viu o tempo passar, ver uma imagem desconhecida, inédita e clara, como vida em flor, da semente que em mim hoje germina. Eis a minha festa.

É a única coisa que consigo pensar

13 de agosto, quase 26 anos, e uma náusea atemporal. É como se meu espírito estivesse sublimado no todo e sentindo todas as dores do mundo. Geralmente, minhas crises e paralisias nunca foram minhas. É sempre este todo sublimado. Sentir todas as dores do mundo não me faz uma santa, e sequer uma pessoa melhor. Já disseram que me atrapalha, e já disseram até que me faziam médium, e isto seria uma descoberta incrível se depois de anos indo em centros espíritas eu soubesse o que fazer com este palpite. Então agora, nenhuma desculpa, nenhuma solução, muito menos explicação, nada palpável pode recolocar o véu que foi tirado. Fui curada de uma cegueira, e estou encarecidamente apenas querendo entender se ela era necessária.
Somos bombardeados com notícias trágicas no mundo. Há guerras, sabemos. Há o medo da violência generalizada, das grandes metrópoles, sabemos. Há fatos, há doenças, há acidentes, há dor. A dor, também, nossa. E talvez para conseguirmos administrá-la, é necessário uma dose de egoísmo, afinal, somos nossa única salvação aparente, e esta talvez seja a única coisa que possamos resolver. Este egoísmo se traduz numa constante e imperceptível criação fictícia do mundo. Onde não conseguimos espontaneamente ver coisas belas, talvez sermos apáticos com as mazelas possa ser uma anestesia necessária para que se permaneça o sentido de uma vida medíocre, que é a solução mais consistente que nos ensinaram até agora. Consistente e necessária. O mendigo vira um fato, uma cena, um problema dele, um adereço. As notícias trágicas do noticiário um consolo egoísta de que não foi conosco. O sentir o outro uma desnecessidade prática para a sobrevivência. Buscar um sentido para a vida e sofrer as dores alheias não parecem ser escolhas racionais inteligentes. Nunca discordei. E qualquer psicólogo, religião, amigo, ditado popular e até instruções de emergência de uma aeromoça vão dizer que primeiro devemos olhar para nós mesmos, para depois ajudar o outro. Uma inteligência prática que sempre admirei, mas nunca segui por não entender aonde isto pode levar…. construir a minha vida, dizem. Só assim posso ajudar o outro. Mas que vida é essa que se posterga o outro até a construção de mim mesma, que fatalmente é interminável?
Mas acontece que todos meus problemas, minha paralisia insuportável e atual, surgiu desse defeito congênito de ter o véu da criação fictícia do mundo um pouco translúcido. Não resolvo o seu problema, nem o meu, mas sofro cronicamente os dois, os três, os mil. Não consigo pensar na minha existência, diariamente e profundamente, quando vejo injustiças profundas das quais sei que eu teria como não ignorar. Que o problema é meu. Se não é meu, a solução pode ter alguma ajuda criativa minha. Isso seria simples e nada dramático, mas ainda não aprendi o que fazer quando o problema não é meu, a solução não passa por mim, mas a dor eu compartilho. Esta semana aconteceram fatos seqüenciais com amigos e conhecidos meus, e não foram 1 ou 2 e nem pouco trágicos, que me empurraram para um vôo sobre o abismo. O véu translúcido agora simplesmente não existe mais. Se via translucidamente, hoje vejo tudo cru. Hoje, o político Eduardo Campos morreu, e eu não consigo parar de sofrer a dor das famílias e o absurdo diário em que nossos planos, até então necessários, são esfacelados como se fóssemos baratas cósmicas. Ser presidenciável, e chegar a uma disputa dessa envergadura, é tão frágil quanto a pretensão ininteligível da flor em ser bela. Se eu preciso de psicólogo, centro espírita, vergonha na cara, eu não sei.
Só sei que o véu não existe mais. E o sentido, cada vez mais distante de ser apreendido. Não havendo mais maquiagem para as dores mais profundas do ser, das possibilidades terríveis que temos em nós mesmos, que vemos, que sentimos, e da constatação real de que a vida, seja ela eterna ou apenas um fragmento cósmico, me nasce uma furiosa necessidade, mais urgente do que era, de poder ter uma existência que sirva para algo menos medíocre do que espero de mim mesma. Que minhas potencialidades consigam sair da paralisia, da confusão e das dores sentidas, e possa, equilibrada, servir aos outros desta forma que hoje ignoro como. Que esta dualidade entre me erguer e erguer o próximo consiga se construir de forma que o egoísmo seja diluído, e que o famigerado “egoísmo necessário”, se o for, faça algum sentido no meio destes tempos de lodo, lama e podridão. Não sei se isto é um desabafo, um texto, uma oração ou um amontoado sem sentido. Geralmente, pitadas insensatas de tudo isto. O meu medo é que seja um pedido de socorro, daqueles que ninguém pode ajudar, porque o véu já foi descortinado. Ir em frente lidando apenas com a minha dor pesa mais do que sofrer as dores do mundo. Mas algo deve surgir da náusea. Não sei se a poesia salva o medo, mas dá a esperança de que uma flor vai surgir no asfalto, como sabia Drummond. É a única coisa que consigo pensar.

O presunto, o peito de peru, e as escolhas.

Todo mundo usava uniforme. É algo meio cenário desnecessário de guerra ou o que mais quiser se degringolar da cena, mas acho uma forma justa de se começar a puberdade.

Hoje, além de decidir o tipo de presunto fatiado que quero (isto quando não posso peito de peru, pela imposição da vida light necessária), tenho que escolher se amarro o cinto dessa ou doutra forma (sim, o cinto vem para a cintura ou o quadril).  Viver no uniforme parecia mais fácil.

Parecia porque tudo é uma ilusão.  Não é melhor, em essência. E somos diferentes. Acontece que a pressão sobre a escolha, em minha realidade adulta, é tao absurda, que me sinto uma criança escolhendo entre uniformes: é tudo igual, mas me fará diferente.  Como saber ?

Saber sobre qual ilusão se vive é uma arte. Me olhar no espelho hoje, no auge do que dizem ser a “flor da idade” (para mim, me falam agora, com 25), no fresh do momento, me faz me sentir horrível e com rugas que não tenho.  NAda adianta. Não existe parâmetro desejável. Me projetar no futuro me faz pior. Me olhar para trás não me faz melhor.

Não sabia nem que existia fatia de presunto, ou de peito de peru, aos 13. Seria a ignorância, o elixir da felicidade? Ou conhecimento é beleza, embora não vendável, e nem para todos os gostos ? Uma bolsinha nos olhos, é charmoso? Ah, pára… isso não tem a ver com presunto. Mas tudo depende da construção, no final. E do referencial, sempre cruel.  Mas no fim, o presunto ou o peito de peru será comido. SEm construções de linguagens.  Vamos na realidade nua e crua? (sem presunto cozido?_)

 

A verdade, embora não exista, entre o presunto e o peito pode ser a seguinte, vinda de um diálogo :

Presunto:

viemos do mesmo lugar, mas somos diferentes.

Peito:

Presunto, você é gordo, e eu acho VocÊ gostosto.

Presunto:

Peito, vocÊ é saboroso, mas enjoativo, mas magro.

 

Fim de papo: Cada um tem um preço, mas o que vale é a escolha. Como já passei da fase do uniforme, acho que posso escolher, livremente. (MAs é mentira.)

 

Sobre ser livre:  Sim, nem na escolha do presunto. Mas façamos nossas tentativas. A liberdade é mais sutil  (e trabalhosa) do que parece. 

SOBRE A COERÊNCIA E OS DISCURSOS

                 Cada vez mais tenho me preocupado com a situação dos animais, coisa que antes eu simplesmente ignorava. Ainda sou carnívora, uso cosméticos,  porque simplesmente ignorava o sofrimento dos animais (não por falta de informações ou vídeos assustadores). Ignorava porque amo cosméticos e carne, e tudo que pudesse tolher este meu “direito” sempre foi afastado sem muita reflexão. O fato que ocorreu esta semana, com o Instituto Royal, foi mais um momento de lapidação para, talvez, um dia me tornar de fato uma defensora (principalmente, no meu dia a dia, a nível individual), da situação dos animais, mas não foi o único. Apesar de ainda comer carne e usar cosméticos, alguma coisa, a nível de consciência, já vem mudando há algum tempo.

                Outra intersecção com este episódio, é engraçado como certas pessoas que aplaudem o que aconteceu com os cãezinhos beagles, quando houve manifesta invasão de propriedade privada, não aplaudem, quando, locais manifestamente resultados de especulação imobiliária, são ocupados pelo fato de não atenderem ao preceito constitucional da função social da propriedade. Estas mesmas pessoas acham um absurdo ocupações, pois são uma afronta ao direto sagrado da propriedade privada. Não desmerecendo ambas as lutas, o que quero dizer é que coerência é uma tarefa cara, e que necessita de uma vida inteira de exercícios de reinvenção de comportamentos por meio da reflexão profunda e iluminação de consciência. Continuar comendo carne e usando cosméticos é bom, a ponto de quase ninguém se preocupar com a forma como isto é feito. Ter privilégios que o capitalismo naturalmente paga para diluir a consciência de quem os detêm, dilui a preocupação com a necessidade de mudança, minha e/ou do sistema.

                Isto é contradição. E esta é a luta individual, coordenar a consciência reflexiva com atitudes emancipatórias sobre o que se acredita. E o que acreditamos, para ser libertador, é ainda mais difícil: necessita de verdadeira vontade de analisar a situação por todos os ângulos possíveis, mas principalmente, de alteridade. Depois disso, imaginar se há outra saída.

                Vi certas frases, sobre o caso dos beagles , como: “aplaude o episódio da invasão, mas usa maquiagem”, bem como ouço muito “quer um mundo justo e igual, mas ganhar dinheiro como qualquer outro”. Na verdade, não consigo ver a contradição como sendo um valor imperfeito que deve ser erradicado. Ela é a válvula propulsora da reflexão e amadurecimento de uma consciência emancipatória, e consequentemente, conciliatória entre atitude e pensamento. Vivemos nos colocando a prova, colocando a prova nossos valores, mesmo se não quisermos. A postura que condeno não é a contraditória, mas aquela que, por mais convicta que seja, foi feita sem uma construção profunda, não se abrindo para as possibilidades da sua própria vivência e se fechando no seu maniqueísmo coerente.

                Acho que existem dois passos: a mudança de consciência, e depois, a mudança de postura.  Não se transforma a realidade com a ansiedade que cobra uma coerência linear para todos. Isto é senso comum, não coerência. Na realidade que convivo, o que vejo é que ainda não chegamos a um nível de nos preocuparmos com as atitudes alheias. A situação, para mim, está tão crítica, que devemos nos desesperar com a consciência ainda não formada: pela forma como os debates são feitos, as consciências têm sido tão frágeis.

                Sobre os cachorrinhos, vamos parar de te medo de exercitar um pouco a consciência, sem ter medo do desconhecido e do resultado que isto dará. Enquanto eu não quiser pensar no assunto, porque quem defende os beagles usam maquiagem, portanto, quero ser salva desta contradição, ou, se eu começar a pensar nisso vou deixar de comer carne, viveremos em uma batalha indecente e sem sentido. Há caminhos novos a serem buscados. Há soluções possíveis.

                Já sobre o caso da especulação imobiliária e a ocupação da propriedade, ouso não comentar agora, pois, infelizmente, há muita gente que vê mais humanidade em um animal, do que no ser humano.

 

Nos amamos.

Eu te digo “eu te amo”, você me diz “eu te amo”, é bom. Mas ainda é uma promessa que precisa ser honrada. Afinal, eu te amo é a incompletude por não nos bastarmos de amor apenas. Eu te amo reflete nossa ânsia humana de sermos amados por palavras, por gestos, por carinhos incessantes, por atitudes de amor. E é por precisarmos tanto desses cuidados, que eu te amo pode confundir, ludibriar, desdizer, contrariar toda sua essência romântica. Pode se rebaixar a ser uma maneira preguiçosa de não se amar de verdade, apesar de todo anúncio. Pode ser uma maneira de fugir do amor visceral, que não precisa ser proclamado, e precisa ser regado diariamente com atitudes que, por si só, dizem, com todas as letras que se faltam, eu te amo. Não consigo ouvir eu te amo e nunca receber flores. Não consigo ouvir eu te amo como se ele fosse uma parte do “boa noite”, por protocolo do amor. Não consigo ouvir eu te amo, sem me sentir verdadeiramente amada. Eu te amo é forte. Feito para amores fortes. Se assim não é, não deve ser dito. E se for, não deve terminar como um atestado formal para que se queira saber que se ama.
Afinal, ouvir eu te amo é aceitar um silencioso pacto angustiante, visto que a cada minuto que se passa, não se sabe mais da ilusão de ser amado. Eu te amo não permanece: se perde no exato momento em que foi pronunciado. É um conforto momentâneo, é uma necessidade urgente, um coito desesperado, um ponto final redundante para resumir uma vontade de se querer bem, (mas que como toda vontade, pede por ser consumada, para só assim, sabermos que de fato existiu.)
Não que amor precise de provas incessantes. Pelo contrário. Ele precisa ser tão claro, profundo e bem dito no árduo convívio diário. É nessa hora que o amor desdenha de todo ritual protocolar, e sem precisar ser soletrado, é sentido aos berros. Naquelas pequenas atitudes, seja ela uma mera ligação preocupada, uma surpresa boba, uma ajuda, (principalmente quando parece ser impossível ajudar). Mimos necessários que só se sabem amando. Coisas que nos pegam colo, e nos fazem felizes.
Talvez essa seja uma parte egoísta do amor. São exigências que, mesmo que mudem seu conteúdo de tempos em tempos, de relações para relações, sempre existirão. Difícil apenas dar sua parcela de amor, sem exigir nada em troca. É nisso que “eu te amo” peca. Eu te amo deveria ser modificado para “amo você”. Amar alguém é subtrair a primeira pessoa do singular, eu, e somar terceira pessoa, singular ou não. Amar alguém é se despir de todo egoísmo, de suas necessidades. É querer ver a pessoa amada sempre feliz. E se esforçar para fazer isso, diariamente. É você, não eu.
Que assim seja. Mas não tenho mais esse deslumbramento utópico. Posso até amar assim, mas não gratuitamente. Sei exatamente das minhas necessidades ainda tão humanas e reais. Então me diga eu te amo. Repita ininterruptamente que me ama. Te amo. Te amo. Te amo. Fale até ser impossível esquecer. Mas, acima de tudo, não se esqueça de me amar. Quem sabe, se ao invés “eu te amo” ou “amo você”, começássemos a dizer “nos amamos?”. Estou convencida, mesmo que não seja louvável, e contrariando a sabedoria de Mário de Andrade, que o amor é verbo transitivo direto. Precisa de complemento.

Entre o céu e inferno, Brasil.

Depois de ver este link, e toda vez que continuo nos estudos em relação à efetivação de direitos sociais, em especial o direito à saúde (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/96924-dilma-vai-acabar-com-o-sus.shtml), fico paralisada entre a tamanha sacanagem que não pára de ocorrer conosco, da urgência da mudança contendora do apocalipse que está por vir, e da sensação de impotência, comodismo ou luta que recai sobre todos.
Porque no fim, é isto que é fazer política neste país: achar um jeito de ser popular, mesmo fudendo todos! É tão revoltante, que vou tentar me redimir do palavrão (a palavra política) com Drummond, que já dizia que “esse é tempo de partido, tempo de homens partidos”. Mas cada vez mais tudo se dilui no discurso individualista e de perpetuação do poder, do dinheiro: do ser sendo uma miragem de ilusões vendidas na Disneyland. Não existem partidos, intenções políticas marcadas pelo ideal democrático, coletividade. Só existe, ainda com Drummond, “mãos viajando sem braços, obscenos gestos avulsos.”
A saúde pública no Brasil (e privada também, afinal, tá tudo no mesmo saco furado!!!!) sendo esta lástima e ainda negociada para a falência total. Onde vamos chegar. Depois da eleição do deputado Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos, começo a pensar aonde está o mínimo de sanidade nesse mundo doente. Não é porque você é evangélico, que precisa apoiar um pastor que fala barbaridades (e por favor, não diga que não é barbaridade as frases desse pastor, estou contando apenas com o fato de você, que o apoia, não ter parado para pensar e este ser um apoio cego, porque não tem outra explicação!). Da mesma forma, não é porque você faz política, que deve se curvar para (des)propósitos alheios ao interesse maior pelo qual você deveria estar lá. Desculpe, mas não dá!
Utopia? Se isso “são palavras bonitas”, “mas não mudam nada”, pois o que acontece é “como as coisas são”, e “não tem o que se fazer, só buscar o seu” porque “é tudo muito sujo” e “você acaba sujando as mãos” e “ninguém faz nada” e no “final quem faz, se fode”, tudo bem. Eu tento pensar assim. Só não consigo prosseguir nessa ideia da redenção pela busca do “meu lugar ao sol”, do esforço e do talento desperdiçado para que eu consiga ter um lenitivo pessoal, uma viagem de férias eterna que me livre de todas estas atrocidades. Não digo que não seria melhor pensar dentro do jogo que já está sendo jogado e que é difícil mudar alguma coisa,( e, principalmente, nós mesmos, sedentos do sucesso alimentador de nossa vaidade ). Ok. Argumento válido. Vamos então tentar ser felizes, leves. Fingir que nada ocorre além de mim. Estamos todos bem com este comodismo. Vamos agora comprar um plano de saúde milionário ou não depender da saúde do país, rezar para que Deus nos livre de alguma doença, pagar o dízimo e torcer para sempre fazer parte das maiorias ditadoras e não das minorias perseguidas, e aí sim vamos ser felizes com nossa visão distorcida da realidade, fazendo o certo na ótica individual/liberal, divina e bíblica, e seremos salvos (e teremos um terreno no céu, com médicos particulares ). ALELUIA IRMÃOS! ALELUIA!
Se esta é a verdade libertadora, prefiro vender minha alma ao diabo. Lá pelo menos não pago impostos, e talvez me divirta mais, descompromissada de pensar em como tudo pode tentar ser diferente. Mas nem a promessa consoladora de um inferno bombante, delirante e free posso ter. Por enquanto ainda estou no Brasil, este limbo entre o céu e o inferno, em que promessas de progresso são banidas no campo em que ela deveria surgir: a arena política. Estamos em um purgatório onde paga-se à vista por um sofrimento parcelado que parece não existir, pois se esconde na imposição cruel de se ser feliz pelo escapismo inevitável da alegria conformada, espontânea e melancólica, a qual todos nós brasileiros temos que aprender a enfrentar se realmente quisermos qualquer mínimo de dignidade (e porque não felicidade?) no presente. Afinal, céu e inferno são assuntos para depois.